E essa pressão não é nada saudável, pois não?
Não, e por isso é que recupero este conceito do Winnicott, que já vem dos anos 1950/60, dos pais suficientemente bons, aqueles que percebem que se esforçam para dar o seu melhor e fazer o seu melhor e conseguem pensar sobre falhas ou dificuldades e aprender com elas, ultrapassá-las e, com isso, crescer, permitindo, portanto, um equilíbrio mais saudável.
Depois, há outra coisa que procuro abordar neste livro, que é, a propósito da ideia de perfeição, a forma como, hoje, a sociedade se centra muito no exterior, nas aparências, o tal aspeto da peça de fruta, e não tanto sobre o que está lá por baixo, o conteúdo.
A lógica bastante narcisista e maniqueísta das redes sociais, a competitividade, a importância da performance e do status, oito ou oitenta, tem contribuído para isso?
É mesmo isso, essa lógica do oito ou oitenta, mas na verdade, a maioria de nós situa-se algures entre o oito e o oitenta, oscilando entre várias coisas. E mesmo a propósito dos miúdos e do desempenho deles, o normal é que se, por exemplo, forem fazer uma avaliação psicológica do seu desenvolvimento intelectual, tenham áreas em que são, obviamente, mais fortes, outras em que são normais, e outras em que são mais frágeis.
Por isso é que todos temos perfis diferentes, mas hoje verifica-se uma cada vez menor capacidade de aceitar e de integrar miúdos e até pais que tenham perfis diferentes, porque há uma expectativa de formatação maior.
"Ao contrário desta ideia de perfeição aparente muito amplificada pelas redes sociais, em que se está sempre 'top', sempre 'up', a vida não é perfeita"
Por exemplo, uma coisa de que falo no livro é esta ideia de desencorajar os miúdos que querem seguir artes ou humanidades. Só se pode escolher ciências ou económicas, porque são as que têm mais saídas profissionais e empregos mais bem remunerados e, associado a isso, uma dita carreira de sucesso, digamos assim.
Acho isso muito relativo e digo sempre que o importante é os miúdos prosseguirem por aquilo que sentem verdadeiramente que tem que ver com eles. Se fizeram uma coisa de que gostam, podem ter muito mais destaque e o resto vem naturalmente.
Mas quando todas as expetativas estão depositadas nos filhos, que têm de ser todos “Cristianos Ronaldos” de alguma coisa, não é fácil deixá-los fazer o seu próprio caminho, sobretudo quando não é o sonhado ou imaginado pelos pais.
A propósito disso, há um exercício que proponho aos pais e filhos que me lerem, que é apontarem nas páginas em branco no fim do livro as áreas da vida em que se consideram mais aptos e aquelas em que mais facilmente poderão falhar. Porque, ao contrário desta ideia de perfeição aparente muito amplificada pelas redes sociais, em que se está sempre “top”, sempre “up”, a vida não é perfeita, e como dizia um adolescente em consulta: “Ninguém é tão feio como na fotografia do passe, nem tão perfeito como no que publica no Instagram.” E é verdade.
“Os momentos de pausa também são preciosos. Permitem recarregar alguma energia psíquica”
Será alguma coisa de intermédio. Mas o que resulta desta idealização e desta pressão para a perfeição?
Pode criar duas coisas. Por um lado, muita ansiedade para a atingir. E, às vezes, um fundo depressivo, não de falha ou de falta, mas sempre de insatisfação, porque eu já tenho, mas quero mais, nunca chega, que, obviamente, é prejudicial. Por outro lado, por vezes, aquilo que chamamos de vivências em “falso self”, que é um termo do Winnicott. Ou seja, as pessoas não estão sequer a ser verdadeiras consigo próprias porque estão a abdicar do que são para corresponder ao que imaginam ser a expectativa dos outros, do grupo, dos pais, dos outros pais… Isto passa-se tanto com pais como com filhos.
Vivemos então numa sociedade refém de uma ideia de êxito e sucesso, com expetativas e exigências tão elevadas em relação a nós próprios e aos nossos filhos, que semeamos frustração e infelicidade?
Sim, porque depois estamos a criar aquilo a que chamamos um ideal do eu distorcido, em que, mesmo quando as pessoas estão bem, parece que lhes falta sempre qualquer coisa. E, portanto, acabam por funcionar, ou podem acabar por funcionar, no registo de quem vai atrás da linha do horizonte e quanto mais a persegue, mais ela se afasta.
Aliás, há uns anos que a Organização Mundial de Saúde chama a atenção para o facto de as perturbações de ansiedade e do humor, muito ligadas a situações de burnout, serem a maior causa de morbilidade em saúde mental.
"Não é uma apologia da mediocridade, da desistência, da apatia, da negligência ou da ausência de objetivos. É exatamente o contrário. É a procura de retirar a pressão que, na prática, resulta muitas vezes nessa desistência, apatia, sofrimento e até negligência."
As pessoas depositam tanta energia psíquica neste desempenho que, obviamente, esgotam, até porque não conseguem parar nem dar espaço e tempo a si próprias e à relação com os outros. Muitas vezes isso acaba por minar, de uma maneira muito injusta, o funcionamento saudável dos pais e dos miúdos.





